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VARIAN FRY (1907-1967)

Varian Fry em Marselha, 1940-1941. Foto do arquivo de Annette Fry.

Nascido em 1907, filho de um protestante liberal, bem-sucedido corretor da Bolsa de Nova York, Fry estudou lingüística em Harvard, onde fundou a revista literária Hound & Horn com Lincoln Kirstein. Era um homem culto, apaixonado pelo latim, conhecedor de vinhos, apreciador das artes plásticas e adorava ler. Deixou a universidade sem fazer amigos.

Apenas no último ano da faculdade Fry conheceu Eileen Hughes, editora da revista Atlantic Monthly, uma mulher doce e maternal, sete anos mais velha, com quem ele se casou em 1931. O casal mudou-se para Manhattan e Eileen lecionava inglês enquanto Fry tornava-se editor-assistente da revista Scholastic. Em 1935, aos 27 anos, assumiu o cargo de editor da revista de assuntos internacionais The Living Age. Neste mesmo ano foi a Berlim fazer uma reportagem sobre a Alemanha nazista.

Em Berlim, Fry encontrou-se com Ernst Hanfstaengl, um alemão-americano formado em Harvard, então um oficial que trabalhava no Ministério da Propaganda. Hanfstaengl contou a Fry que os líderes nazistas mais radicais, entre eles Hitler e Goebbels, estavam determinados a exterminar os judeus. Essa revelação reforçou o horror que Fry havia experimentado ao passear pelas ruas da cidade e testemunhar a Kristallnacht (a Noite de Cristal).

Fry voltou arrasado, convencido de que a Europa iria transformar-se num imenso campo de concentração. Mas todas as instituições à sua volta ignoraram seus apelos. Em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia, Fry decidiu por sua própria conta e risco resgatar a intelligentsia européia perseguida. Com o emigrado austríaco Karl Frank começou a levantar fundos.

Em junho de 1940, a rendição da França precipitou os acontecimentos. O exército alemão ocupou o norte do país, passando a dominar  o continente europeu desde a Polônia até os Pireneus. Em Vichy, o governo francês colaboracionista, chefiado pelo Marechal Pétain, assinou um armistício humilhante com Hitler que obrigava a França  a entregar aos alemães todo cidadão estrangeiro morando em solo francês que fosse requisitado (artigo 19, cláusula de “rendição a pedido”).

Milhares de artistas e intelectuais haviam fugido para o sul da França e esperavam ali obter um visto de saída para qualquer lugar para fora do matadouro em que a Europa se convertia. Mas as autoridades francesas, zelosas colaboradoras do nazismo, recusavam a emissão dos vistos de saída aos refugiados. Os nazistas já tinham conseguido obter a “rendição a pedido” de numerosos judeus e oponentes, agarrados pela polícia francesa e deportados para a morte nos campos alemães de concentração e de extermínio.

Fry percebeu que precisava agir imediatamente. Falou com Eleanor Roosevelt, obtendo garantia de seus esforços junto aos cônsules americanos na França. Convenceu o Departamento de Estado a fornecer-lhe um passaporte especial. Persuadiu a ACM (Associação Cristã de Moços) a dar-lhe uma carta de apresentação identificando-o como integrante daquela organização humanitária. Conversou com Thomas Mann, Jacques Maritain, Reinhold Niebuhr, Jules Romains e outros exilados, que lhe deram nomes de pessoas a salvar. E partiu para Lisboa, de onde tomou o trem para Marselha, ali chegando a 15 de agosto de 1940. Trazia duas malas de roupas, uma lista com centenas de nomes e três mil dólares presos à perna com fita adesiva.

A polícia francesa não dava vistos de entrada a quem não tivesse um trabalho determinado no país. Mas concedeu um visto a Fry, convencida pela sua documentação, quando na verdade ele trabalhava secretamente para a Emergency Rescue Committee, com a missão de salvar clandestinamente uns 200 refugiados ameaçados de morte. Fry esperava ficar em Marselha por um mês, mas logo percebeu que o trabalho seria longo e complicado. Os artistas e intelectuais foragidos do nazismo não eram uns 200, eles eram milhares…

Varian Fry logo recrutou dois ajudantes que foram vitais para o sucesso das operações: a dinâmica Mirian Davenport Ebel (1915-1999), jovem de Boston que estudava história da arte na Sorbonne no início da guerra; e o economista alemão Albert Hirschman, então com vinte e cinco anos, a quem Frey apelidou de “Beamish”. Hirschman nascera em Berlim em 1915, de onde imigrara, em 1933, para a França; em 1936, foi de Paris para Trieste e ali permaneceu dois anos, continuando seus estudos até 1938, quando voltou à França. Depois de ser dispensado do exército francês, com a falsa identidade francesa de Albert Hermant, acabou em Marselha. Trabalhou com Fry de julho a dezembro de 1940.

Logo eles abriram o Centre Américain de Secours numa fábrica de bolsas abandonada, na rua Grignan. Ali, desde o início da manhã até tarde da noite, os três entrevistavam refugiados. As informações básicas de cada pessoa e o nome de alguém que pudesse confirmar essas informações eram anotadas numa ficha. Os endereços eram omitidos. Ao grupo logo se juntaram Mary Jayne Gold (1909-1997), Charles Fawcett e Leon Ball. O CAS recebia umas 25 cartas por dia, dúzias de telefonemas por hora.

Fry conseguiu falar com a maioria das pessoas de sua lista. O sistema clandestino de comunicação entre os refugiados era tão eficiente que a maioria encontrou Fry antes que ele tivesse tempo de procurá-los. Cerca de 15.000 refugiados entraram em contato com o CAS, que conduzia até 120 entrevistas por dia. Fry selecionava os que seriam salvos: sua missão era salvar os novelistas, os poetas, os pintores, os historiadores, os filósofos, os cientistas – a elite intelectual da Europa. “Algumas vezes”, escreveu, “sinto como se tivesse vivido naquele ano de 1940 minha vida inteira”.

A alguns refugiados, Fry dava dinheiro para alimentos, a outros, uma carta de apresentação a uma agência humanitária legítima. Os que integravam sua lista recebiam a instrução de aguardar notícias de possíveis “planos de viagem”. Todos os dias, depois que o último refugiado saía do local, Fry e Hirschman dirigiam-se ao banheiro, abriam as torneiras para que não fossem ouvidos e discutiam os problemas surgidos. Depois escondiam os documentos mais incriminadores atrás do espelho. Qualquer dinheiro que houvesse ia para a casa de Hirschman. Fry espalhava as fichas pela mesa, em cuidadosa desordem, de modo a perceber, no dia seguinte, se alguém tinha tocado nelas.

Mas o maior problema era encontrar uma rota de fuga. A mais evidente – pelo mar – era a mais perigosa. As embarcações disponíveis freqüentemente não estavam em condições de navegar e o tráfego marítimo em Marselha era sujeito a rígidas restrições. Frotas italianas e alemãs patrulhavam o Mediterrâneo. E mesmo que um barco conseguisse chegar ao norte da África corria o risco de ser capturado e enviado de volta à França. Restavam as montanhas dos Pirineus. Embora Portugal e Espanha tivessem reafirmado sua neutralidade, ainda se dispunham a permitir a passagem de refugiados com vistos de trânsito, desde que tivessem um destino final certo, como os EUA. O problema era sair ilegalmente da França e entrar legalmente na Espanha.

Durante a Guerra Civil Espanhola, Hirschman havia combatido por algum tempo numa unidade republicana em Barcelona e sabia que nas montanhas de Cerbère, uma vila de pescadores situada perto da fronteira espanhola, os postos de fronteira francês e espanhol eram localizados de tal modo que um não podia avistar o outro. Hirschman disse a Fry que era possível escalar a montanha do lado francês sem ser visto pelos guardas e sem ultrapassar o posto fronteiriço espanhol, onde era imperativo obter carimbo de ingresso no passaporte. Ele desenhou um mapinha para Fry, que se tornaria um documento histórico. Mas havia outros documentos, mais formais, que eram necessários – uma “Carte d’identité” (carteira de identidade), exigida para qualquer pessoa que viajasse pela França – e um passaporte.

Pouquíssimas pessoas da lista de famosos de Fry podiam viajar com seus próprios nomes. Fry teve que adquirir grande número de passaportes usados e carteira de identidade em brando. Para fasificar os documentos, ele contratou os serviços de um simpático cartunista austríaco chamado Bill Freier. Ele pegava um passaporte comprado no mercado negro – em geral holandês ou belga, porque tinham menos probabilidade de serem examinados – e, com uma lâmina de barbear, retirava a foto original, colocando em seu lugar a foto de quem usaria o passaporte. Depois, com um pincel finíssimo, reproduzia o carimbo que oficializava o documento. Finalmente, dava ao passaporte uma aparência de usado, com a ajuda de gotas d’água, cinza de cigarro e lixa fina.

O primeiro a fazer o uso do trabalho de Freier foi o escritor Konrad Heiden, o homem que revelara ao mundo a verdadeira natureza de Hitler na biografia Der Führer. Depois de Heiden partiram, em rápida sucessão, Hans Natonek; Emil Gumbel, o matemático pacifista; Otto Meyerhof, prêmio Nobel de Química; os romancistas Alfred Polgar, Hertha Pauli e Leonhard Frank. Todos chegaram a Lisboa em segurança. Dois outros problemas começaram a tornar-se críticos: fazer dinheiro chegar à França e conseguir fazer mensagens sair do país.

Fry procurou um gângster corso que tinha amigos que queriam tirar dinheiro da França. Em troca de dinheiro, ele ajudou os amigos do gângster. Desta forma, conseguiu juntar uma soma razoável em pouco tempo. Quando havia uma mensagem para ser transmitida a Nova York, Fry a datilografava sobre papel de seda. Depois cortava o papel em tiras, cada uma contendo uma única linha e as colava uma na ponta da outra, em sequência. Tudo era enrolado e colocado dentro de um tubo quase vazio de pasta de dente. O “tubograma” era dado a algum refugiado para que o entregasse ao chegar nos EUA. Nem uma única mensagem deixou de ser recebida.

Nem todos podiam aceitar a rota de fuga elaborada por Fry. O gordo e hipertenso Franz Werfel sofrera um ataque cardíaco dois anos antes. E Heinrich Mann, com quase 70 anos e saúde frágil, temia a viagem longa e exaustiva. Fry só conseguiu convencê-los quando se ofereceu para viajar com eles. Assim, às 5 horas da minha de uma quinta-feira, no dia 12 de setembro de 1940, Varian Fry encontrou-se com Franz e Alma Werfel, Heinrich, Nelly e Golo Mann num canto da estação St. Charles. Fry, que alertara a todos para que trouxessem apenas as bagagens essenciais, chocou-se ao ver as doze malas de Alma: além de roupas, sapatos, jóias e perfumes, continham partituras, manuscritos, obras de arte que ela preferia morrer a deixar para trás.

Às 5h30 os seis subiram no trem com todas as malas de Alma. No final da tarde, o trem chegou à estação de Cerbère. Passaram a noite num hotel, onde novamente chocou a todos ao surgir num elegante vestido branco para escalar a montanha sob um sol fortíssimo. Após um café-da-manhã tenso, Fry reuniu o grupo num cemitério, antes da fuga. Lá explicou qual o procedimento a seguir e fez uma última checagem para verificar se nenhum deles usava qualquer coisa que pudesse despertar suspeitas. Descobriu que Heinrich Mann, cujo passaporte o identificava como Heinrich Ludwig, usava um chapéu com as iniciais H. M. gravadas. Enquanto Fry arrancava as iniciais com seu canivete, Mann bufou: “Somos obrigados a agir como criminosos”.

Fry deu ao grupo um pacote de cigarros americanos, necessários para o suborno da polícia, e se despediu de todos. Voltou depois à cidade para acompanhar as malas de Alma no breve percurso de trem até Port-Bou, na Espanha. Antes do pôr-do-sol, Fry e seus protegidos já estavam reunidos outra vez. Dois dias mais tarde chegavam a Lisboa. Uma vez em Lisboa, Fry começou a entrevistar refugiados que ajudara a fugir para descobrir se haviam encontrado percalços.

Toda a operação – desde os primeiros tempos num quarto do Hotel Splendide até o estabelecimento de um bem administrado escritório com rotina burocrática nas barbas da polícia francesa e depois da Gestapo – foi um ato de puro heroísmo. Mas Hirschman e Fry experimentaram também trágicos insucessos: o suicídio de Walter Benjamin, a extradição de Breitscheid e Hilferding para a Alemanha nazista, onde eles seriam assassinados, o malogro dos primeiros planos para mandar os “clientes” de barco para o Norte da África. Esses fracassos lançavam Fry num profundo desespero.

Como o intenso trabalho do comitê passou a despertar suspeitas na polícia de Vichy, Hirschman decidiu partir em dezembro de 1940 por uma das rotas de fuga que ajudara a criar. Essa rota passava pela Espanha e Portugal e se destinava aos indivíduos com visto de trânsito concedido pelas autoridades consulares dos dois países. Hirschman conseguira tais vistos graças a um visto de emergência que o autorizava a emigrar para os EUA. Mas os franceses de Vichy não emitiam vistos de saída para estrangeiros residentes na França.

Assim, Hirschman precisou sair ilegalmente do território francês: atravessou a pé os Pireneus, evitando Cerbères, a cidade na fronteira francesa próximo à Espanha, seguindo para Port-Bou, de onde era possível entrar licitamente em território espanhol. Passou rapidamente pela Espanha e chegou a Lisboa, onde permaneceu dez dias esperando o navio que o levaria a Nova York[1].

Durante doze meses aquele almofadinha de 32 anos fora o responsável, com a ajuda do cônsul americano Hiram Bingham IV, por uma das mais espetaculares e audaciosas operações da Segunda Guerra Mundial – o resgate em massa da intelligentsia eureopéia e seu transplante de um continente a outro, proeza que Laura Fermi, refugiada e mulher do físico Enrico Fermi, descreveu como “um fenômeno único na história da imigração”.

Fry salvou entre 1.500 e 2.000 refugiados, a maioria deles artistas, escritores e intelectuais, entre os quais os artistas plásticos Jacques Lipchipz, Marc Chagall, Marcel Duchamp e Max Ernst; o cineasta Max Ophuls; os escritores Alfred Polgar, Alma Mahler Werfel, André Breton, Arthur Koestler, Franz Werfel, Golo Mann, Hannah Arendt, Hans Natonek, Heinrich Mann, Hertha Pauli, Konrad Heiden, Leonhard Frank, Lion Feucthwanger, Victor Serge; os cientistas Emil Gumbel, Otto Meyerhof; a musicista Wanda Landowska. O trabalho de Fry chegou ao fim a 29 de agosto de 1941, quando foi preso por agentes franceses e expulso da França com o consentimento das autoridades americanas.

Era inconcebível que um cidadão americano recém-chegado na França ocupada com apenas uma lista de nomes no bolso tivesse conseguido salvar centenas de intelectuais, a maioria deles judeus, das garras do nazismo. Como Fry conseguiu realizar o impossível impunemente e por todo um ano? Sua história recorda “a luta triunfante de Davi contra Golias”[2]. Era “um americano tranquilo”, “uma criança grande”, mas sua inocência aparente era a sua força.

Se Fry tivesse imaginado todos os perigos que corria e todos os obstáculos que enfrentaria, talvez nunca tivesse ousado fazer o que fez. Mas de algum modo ele sabia possuir uma força oculta e, ator nato, gostava de interpretar o papel de inocente. Usando ternos escuros de riscado com gravata-borboleta, seu ar impenetrável era de grande valia diante das autoridades. Mirian Davenport e Hans Sahl viam nele um misto de paixão e método, de formalismo e jovialidade.

De volta a Nova York, Fry publicou o livro Surrender on Demand (Rendição por encomenda, 1945), no qual descreveu sua missão[3]. Teve de fiar-se apenas na memória, pois em Marselha destruía os papéis a cada noite e o resto desapareceu depois que a polícia francesa fechou seu escritório.[4] Quando perguntavam a Fry porque arriscara sua vida para salvar intelectuais e artistas judeus, Fry respondia: “Os refugiados precisavam de mim. Mas era preciso coragem, qualidade que até então eu não tinha certeza de possuir.”

Mas depois da experiência única de salvar a cultura européia de sua destruição pelos nazistas, Fry sentia um grande vazio. Ele errou por diversas atividades, desenvolveu uma úlcera, recorreu à psicanálise. Teve dificuldades em encontrar um emprego, magoou-se profundamente com o fato de que muitos dos refugiados célebres cuja vida salvara passaram a evitá-lo. Diante das duras realidades da vida comum, seu casamento com Eileen ruiu.

Em 1947, Eileen descobriu que tinha um câncer do pulmão. Embora já estivessem divorciados, Fry ainda a amava, e a notícia o arrasou. Ela morreu em 1948. No ano seguinte Fry conheceu Annette Riley, quase vinte anos mais jovem que ele. Casaram-se em 1950. Tiveram três filhos. Foram possivelmente os anos mais felizes de sua vida no pós-guerra. Mas logo as coisas azedaram outra vez. Fry não tinha mais dinheiro e vivia como pária em Connecticut, sem que seus assombrosos feitos fossem reconhecidos, até que em 1967, numa cerimônia realizada no consulado francês em Nova York, Fry foi homenageado com a Cruz do Cavaleiro da Legião de Honra Francesa.

Fry decidiu reeditar suas memórias para as novas gerações e começou a revisá-la; também recebeu e aceitou uma proposta para lecionar latim. Mas uma semana depois de começar o trabalho, Fry não foi à escola. No dia seguinte faltou novamente e a escola, preocupada, avisou a polícia. Um policial encontrou Fry morto na cama, os óculos na mão, entre as páginas manuscritas de suas memórias, vítima de hemorragia cerebral, a 13 de setembro de 1967. Tinha 59 anos. Foi velado apenas por amigos e parentes íntimos.

As homenagens vieram mais tarde, e tarde demais. Foi o primeiro americano a receber, postumamente, o título de “Justo entre as nações” do Museu Yad Vashem, em Israel. Ao saber disso, o ex-Secretário de Estado, Warren Christopher, reconheceu a falha histórica do Departmento do Estado e prestou homenagem a Fry. A história de sua missão foi resgatada por uma reportagem de Donald Carroll[5], depois recuperada por Sheila Isenberg no livro A Hero of Our Own, por sua vez transformado no telefilme Varian’s War: The Forgotten Hero (Fronteira da liberdade, 2001), de Lionel Chetwynd.

Carlin Romano apontou uma série de deturpações históricas no filme, que mostra Fry (William Hurt) como um dandy sexualmente ambíguo (na verdade, ele se casou duas vezes e teve três filhos); auxiliado por um jovem Thomas Mann (que na época era sexagenário), visitando Berlim em 1938 (foi em 1935, quando testemunhou horrorizado as manifestações antissemitas da Kristallnacht); trabalhando com  Miriam Davenport (Julia Ormond), assistente linda e sexy (era uma intelectual recatada). Marselha é descrita de modo fantasioso como cidade ornada de bandeiras com suásticas onde oficiais franceses, alemães e americanos relaxam em animados cafés gays frequentados por Fry. Alguns dos “famosos” que aparecem como tal não o eram à época. E o Hotel Splendide, sede do Centre Américain de Secours, surge como hotel de luxo quando na verdade era bem modesto.[6]

Para fazer o cinema aproximar-se mais da realidade histórica sobre Fry, o Varian Fry Institute e a Chambon Foundation produzem atualmente o documentário And Crown Thy Good, de Pierre Sauvage. Filho de intelectuais judeus fugidos de Paris a Marselha e que tentaram em vão conseguir a ajuda de Fry, Sauvage já contou a história da fuga deles e de cinco mil outros judeus escondidos por uma pequena comunidade cristã nas montanhas de Le Chambon-sur-Lignon, no premiado documentário Weapons of the Spirit (1987).

Sauvage também realizou o telefilme Not Idly By: Peter Bergson, America and the Holocaust (2011), sobre a reação americana ao Holocausto; e We Were There: Christianity During the Holocaust (2011), que reune três curtas ligados pelo tema do resgate de judeus por cristãos durante o Holocausto: Three Righteous Christians’ (2011), sobre três justos franceses; We Were There: Rev. Franklin Littell Confronts the Holocaust (2011), sobre um falecido reverendo que argumentava ser o Holocausto uma crise para os cristãos; e An Interview with Magda Trocme (2011), que recolheu o testemunho da extraordinároa viúva de um pastor de Le Chambon-sur-Lignon que salvou judeus durante o Holocausto.

Bibliografia

And Crown Thy Good. Varian Fry Institute. Disponível em: http://www.varianfry.org/crown1_en.htm. Acesso em 14/11/11.

BARON, Stephanie; ECKMANN, Sabine (eds.). Exiles and Emigrés. The Flight of European Artists from Hitler. (Catálogo). Los Angeles and New York: Los Angeles County Museum of Art / Harry Abrams, 1997.

BERMAN, Elizabeth Kessin. Moral Triage or Cultural Salvage? The Agendas of Varian Fry and the Emergency Rescue Committee, in BARON, Stephanie; ECKMANN, Sabine (eds.). Exiles and Emigrés. The Flight of European Artists from Hitler. (Catálogo). Los Angeles and New York: Los Angeles County Museum of Art / Harry Abrams, 1997.

CARROLL, Donald. Americano foi ‘Schindler’ dos intelectuais. [Transcrito do The Independent Magazine.] Folha de S. Paulo, 21 mai. 1995.

CHESNOFF,  Richard. Varian Fry, a Hero Forgotten. New York Daily News, 26 fev. 1998. Retomado em: CHESNOFF,  Richard. America’s Schindler, Jewish World Review, 27 fev. 1998. Disponível em: http://www.jewishworldreview.com/0298/chesnoff1.html. Acesso em 14/11/11.

EBEL, Miriam Davenport. An Unsentimental Education: a memoir by Miriam Davenport Ebel (1915-1999). Varian Fry Institute. Disponível em: http://www.varianfry.org/ebel_en.htm. Acesso em 14/11/11.

FITTKO, Lisa. Le Chemin des Pyrénées. Paris: Maren Sell & Cie, 1987.

FRY, Varian. Surrender on demand. Nova York: Johnson Books, 1997. Prefácio de Warren Christopher.

GEWEN, Barry. For the American Schindler, Writers and Artists First. Literature of the Holocaust. Disponível em: http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/Holocaust/fry.html. Acesso em 14/11/11.

HIRSCHMAN, Albert. Auto-subversão.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

HIRSCHMAN, Albert. With Varian Fry in Marseille, 1940. FRY, Varian. Assignement: rescue – an autobiography. Nova York: Scholastic, 1993. [Introdução].

KASSOF, Anita. Resource Guide for Teachers. Holocaust Teacher Resource Center. Disponível em: http://www.holocaust-trc.org/fry.htm. Acesso em 14/11/11.

VARIAN FRY INSTITUTE. Disponível em: http://www.varianfry.org/index.htm. Acesso em 14/11/11.

Varian Fry. United States Holocaust Memorial Museum. Disponível em: http://www.ushmm.org/research/library/bibliography/?lang=en&content=varian_fry. Acesso em 14/11/11.

Varian’s War by Those Who Know. Fry Colleagues and Family. Disponível em: http://www.varianfry.org/varians_war_comments_en.htm. Acesso em 14/11/11.

Varian’s War Press Watch. Disponível em: http://www.varianfry.org/varians_war_press_en.htm. Acesso em 14/11/11.

WEBER, Nicholas Fox. A Rescuer of Intellectuals From Vichy France, New York Times, Arts & Leisure, 16 nov.1997. Varian Fry Institute. Disponível em: http://www.varianfry.org/fry_nyt_weber_en.htm. Acesso em 14/11/11.

Websites pertaining to Varian Fry. Varian Fry Institute. Disponível em: http://www.varianfry.org/fry_articles_websites_en.htm. Acesso em 14/11/11.

Filmografia

And Crown Thy Good (EUA, em produção). Direção: Pierre Sauvage. Produção: Varian Fry Institute e a Chambon Foundation. Consultores: Dr. Miriam Davenport Ebel, Dr. Michael R. Marrus, Dr. Robert O. Paxton, Dr. David S. Wyman.

Varian Fry: The Artists’ Schindler (Inglaterra, 1997, 51’, cor, doc, TV). Direção: David Kerr. Produção: BBC. Com depoimentos de Sean Barrett, Stephanie Barron e Miriam Davenport Ebel.

Varian’s War: The Forgotten Hero (Fronteira da liberdade, EUA, 1991, cor, drama, guerra). Direção: Lionel Chetwynd. Com William Hurt (Varian Fry), Julia Ormond (Miriam Davenport), Matt Craven (Beamish), Maury Chaykin (Marcello), Alan Arkin (Freier), Lynn Redgrave (Alma Werfel-Mahler), Remy Girard (Joubert), Gloria Carlin (Bella Chagall), Vlasta Vrana (Franz Werfel), Ted Whitall (Harry Bingham), Christopher Heyerdahl (Marius Franken), Joel Miller (Marc Chagall), John Dunn-Hill (Heinrich Mann), Dorothee Berryman (Madame Fanny). Produção: Barbra Streisand, Cis Corman, Edward Wessex, Kevin Tierney, Michael Deakin.


[1] HIRSCHMAN, Albert. Auto-subversão. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 140-143.

[2] HIRSCHMAN, Albert. Com Varian Fry em Marselha, 1940. Introdução a FRY, Varian. Assignement: rescue – an autobiography. Nova York: Scholastic, 1993.

[3] FRY, Varian. Surrender on demand. Nova York: Random House, 1945. O livro foi reeditado em 1968 pela Scholastic, numa versão revista e reduzida por Fry, pouco antes de morrer, para um público mais jovem, sob o título Assignement: rescue – an autobiography. Essa edição foi reimpressa por ocasião da exposição Varian Fry in Marseille, 1940-1941, realizada em 1993 no Museu da Memória do Holocausto, em Washington, com um prefácio de Albert Hirschman. O livro original foi reeditado em 1997 pela Johnson Books com um prefácio do ex-Secretário de Estado Warren Christopher.

[4] GEWEN, Barry. For the American Schindler, Writers and Artists First. Literature of the Holocaust. URL: http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/Holocaust/fry.html.

[5] CARROLL, Donald. Americano foi ‘Schindler’ dos intelectuais. [Transcrito do The Independent Magazine.] Folha de S. Paulo, 21 mai. 1995.

[6] ROMANO, Carlin. Accuracy: a Novel Notion in Historical Novels? The Chronicle of Higher Education, 13 abr. 2001. Disponível em: http://chronicle.com/free/v47/i31/31b01301.htm.

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NOITE E BRUMAS


Nuit et brouillard (Noite e neblina / Noite e brumas, 1955), de Alain Resnais.

Nuit et brouillard / Night and Fog (neblina / Noite e brumas, França, 1955, 32’, cor e p&b, doc). Direção: Alain Resnais. Texto: Jean Cayrol. Locução: Michel Bouquet. Trilha: Hans Eisler.

Como observou Stuart Liebman [1], as recentes análises da produção, distribuição e recepção de numerosos filmes sobre o Holocausto de 1944 a 1949 [2] obrigam-nos a rever a tese de Peter Novick [3] sobre o silêncio que teria recoberto o Holocausto no imediato pós-guerra. Poucos filmes tiveram, contudo, neste período, a repercussão que teve Nuit et brouillard, de Alain Resnais. Encomendado pelo Comité de la Deuxième Guerre Mondiale (Comitê da Segunda Guerra mundial) para recordar os dez anos da libertação dos campos, o projeto foi aceito pelo cineasta, um dos maiores da Nouvelle Vague, com a condição de contar com a colaboração do poeta judeu Jean Cayrol, ex-prisioneiro de Mauthausen, e que relatara sua experiência em Poèmes de la nuit et du brouillard (1945), livro que inspirou o título do filme.

Nuit et brouillard é uma edição de filmes provenientes de diversos arquivos sobre  o nazismo e seu sistema concentracionário, com imagens chocantes dos campos no momento da Libertação, reproduzidos de A memory of the camps, entre outros registros, mescladas com cenas atuais dos campos de Auschwitz-Birkenau e Majdanek enquanto museus do horror. O preto e branco das imagens de arquivo contrasta com o colorido das imagens atuais dos campos cobertos pela relva enquanto a câmera explora em longos travellings seus tenebrosos interiores.

O comentário irônico e dramático de Jean Cayrol e a engajada trilha sonora do compositor vanguardista Hans Eisler contribuem para tornar o filme um marco na memória visual dos campos, sendo um dos primeiros documentários a abordar o Holocausto de maneira “poética”, procurando desvendar a essência do universo concentracionário. Para esse efeito, Resnais teve de renunciar ao modo didático na descrição das imagens: sua montagem é temática. Assim Susan Sontag recordou-se do filme: “Como nem todas as obras de arte têm como objetivo educar e orientar a consciência, nem todas as obras de arte que realizam com sucesso sua função moral proporcionam grande satisfação como arte […]. Só consigo recordar […] Nuit et brouillard, de Alain Resnais, que satisfaz tanto como ato moral quanto como obra de arte […] [A obra é] altamente seletiva, emocionalmente implacável, historicamente escrupulosa e – se o termo não parecer excessivo – maravilhosa.” [4].

Com lirismo e sarcasmo, o filme de Resnais convida à reflexão sem poupar o espectador de imagens gráficas, preferindo, contudo, captar os detalhes sugestivos do horror: a marca dos dedos fincados nas paredes internas das câmaras de gás, o estilo arquitetônico das torres de vigia dos KZs, a fileira de buracos numa laje de cimento à guisa de privada coletiva. Essas imagens parecem fixar-se em nossas mentes, pela sugestão do sofrimento atroz, com maior força até que as cenas terríveis dos corpos esqueléticos e mutilados, carregados como bonecos pelos soldados e ex-guardas SS, enterrados aos montes por escavadeiras nas valas comuns: imagens tão sórdidas de uma realidade tão horrenda que anestesiam nossa capacidade de identificação: não conseguimos mais nos ver na situação (daí o caráter inimaginável do Holocausto).

Investigando a superação e a permanência do passado, Nuit et brouillard pretende ser um chamado às consciências para que a humanidade não caia mais vítima de líderes carismáticos, alertando para a possibilidade sempre aberta da perigosa sedução do totalitarismo, já que o universo concentracionário não se  limitaria a um único país e a um único tempo, nem teria sido extinto para sempre, podendo subitamente renascer de suas cinzas. Subjaz nesse alerta a esperança ingênua e militante de que, sempre recordados, os crimes bárbaros não se repetirão.

Resnais recordava o Holocausto no contexto da Guerra da Argélia: vivia-se na França a luta contra o colonialismo. Seu filme – assim como logo depois L’Enclos (1961), de Armand Gatti; e Le Temps du ghetto (1961), de Frédéric Rossif – refletia a atualidade política. Essa “universalização” do Holocausto pelo engajamento na causa política da independência da Argélia incomodou o documentarista judeu brasileiro e israelense David Perlov, que observou que nem todo mundo havia morrido no Holocausto, e que o genocídio perpetrado pelos nazistas tinha uma marca judaica que não se podia diluir numa universalização oportunista.

TEXTO DO POETA JEAN CAYROL, PARA O FILME DE ALAIN RESNAIS, COM TRADUÇÃO DO POETA JUAN HERNANDEZ.

Inclusive uma paisagem tranqüila.

Inclusive uma pradaria com vôo de corvos, com colheitas e com fogos de ervas.

Inclusive uma estrada por onde passam carros, camponeses, parelhas.

Inclusive um povo de veraneio, com uma feira e um campanário, pode conduzir simplesmente a um campo de concentração.

Struhhof, Oranienburg, Auschwitz, Neuengamme, Belsen, Ravensbruck, Dachau foram nomes como os outros sobre os mapas e os guias.

O sangue coagulou-se, as bocas calaram-se, os blocos são visitados por uma câmera. Uma estranha erva cresceu e cobriu a terra gasta pelo andar dos concentrados. Os edifícios: e força já não passa pelos cabos elétricos.

1933. A máquina põe-se em marcha. Necessita-se uma nação sem notas discordantes, sem queixas. Todas as mãos à obra.

Um campo de concentração se constrói como um estádio, ou um grande hotel. Com empreitadas, com orçamentos, com competência; sem dúvida, com gratificações.

Nenhum estilo obrigatório.

Deixa-se liberdade à imaginação.

Estilo alpino, estilo garagem, estilo japonês, sem estilo.

Os arquitetos inventam tranqüilamente os alpendres destinados a serem trespassados uma única vez.

Durante esse tempo, Burger, socialista alemão; Stern, estudante judeu de Amsterdã; Schmulski, comerciante de Cracóvia; Annette, colegial de Bordeaux viviam sua vida cotidiana, sem saber que a mil quilômetros de distância já tinham um lugar assinalado.

E chega o dia em que os blocos terminaram, somente faltam eles.

Capturados de Varsóvia. Deportados de Lodz, de Praga, de Bruxelas, de Atenas, de Zagreb, de Odessa ou de Roma. Internados de Pithiviers. Capturados de Vel d’Hiv.

Resistentes reunidos em Compiègne, a multidão dos capturados em flagrante, dos capturados erroneamente, dos capturados por casualidade. Inicia-se a marcha aos campos.

Trens fechados, a cal e canções.

Acúmulo de deportados, cem por vagão.

Nem dia, nem noite, a fome, a sede, a asfixia, a loucura

Cai uma mensagem, às vezes recolhida.

A morte faz sua primeira seleção.

Uma segunda se faz à chegada, na noite e na neblina.

Hoje, sobre o mesmo caminho, é dia e brilha o sol.

O percorremos lentamente, em busca de que?

Das marcas dos cadáveres desaprumados ao abrir as portas.

Ou talvez o passo dos primeiros a descerem, empurrados a coronhadas até a entrada do campo, entre os latidos dos cachorros, os resplendores dos holofotes, e no horizonte a chama do crematório, numa dessas cenografias noturnas que tanto agradavam aos nazis.

Primeiro olhar sobre o campo: é um outro planeta. Sob pretexto higiênico, a nudez; sem mais nem menos, a entrega ao campo de um homem humilhado.

Ultrajado, tatuado, numerado, apanhado no jogo de uma hierarquia ainda incompreensível, coberta de uniforme azul listrado, classificado às vezes Nacht und Nebel, “Noite e Neblina”.

Marcado com o triângulo vermelho dos “políticos”, o deportado enfrenta de pronto os triângulos verdes dos delinqüentes comuns, senhores entre os subhomens

Por cima: o Kapo, quase sempre um delinqüente comum.

Por cima ainda, o SS, o intocável.

Falam-lhe a uma distância de três metros.

No alto, o comandante preside distraído com os ritos. Parece ignorar o campo. Não o ignora.

Inutilmente tentamos descobrir os restos, a realidade dos campos, desprezada pelos que a fabricam, incompreensível para os que a sofrem. Nenhuma imagem pode devolver sua verdadeira dimensão a esses blocos de madeira, a essas camas de madeira onde dormiam três, a essas tocas onde se escondiam, onde comiam sorrateiramente, onde mesmo o sonho era uma ameaça, a de um medo ininterrupto.

Faria falta o suporte da cama que servia de despensa e de caixa-forte, o cobertor pelo qual brigavam, as denúncias, as blasfêmias, as ordens retransmitidas em todas as línguas, as bruscas entradas do SS com vontade de controle ou de brincadeiras.

Deste dormitório de tijolo, desses sonhos ameaçados, somente podemos mostrar-nos a cortiça, as cores.

Assim era a decoração: edifícios que poderiam ser estábulos, granjas, oficinas. Um terreno pobre convertido em solar, um céu de outono indiferente, isto é tudo o que nos resta para imaginar uma noite sulcada de chamadas, de controles, de piolhos; uma noite que faz bater os dentes; temos que dormir rapidamente.

Despertar-se a golpes; empurrando-se, buscando as coisas roubadas.

Às cinco. Interminável reunião sobre a Appelplatz, a “Praça de Chamada”. Os mortos da noite sempre falsificam as listas.

Uma orquestra toca uma marcha de opereta à saída para a pedreira, para a fábrica.

Trabalho na neve que rapidamente se converte em barro gelado.

Trabalho no calor de agosto, com a sede e a disenteria.

Três mil espanhóis morreram para construir esta escadaria que leva à pedreira de Mathausen.

Trabalho nas fábricas subterrâneas

Mês a mês soterrados, se afundam, se escondem, matam. Levam nomes de mulher: Dora, Laura.

Mas esses estranhos operários de trinta quilos são pouco seguros.

E o SS os espiona, os vigia, os reúne, os examina e os registra antes de voltar ao campo.

Cada um manda à sua casa pergaminhos de estilo rústico. Ao Kapo só lhe resta a recontagem de suas vitimas da jornada.

O deportado encontra de novo a obsessão que dirige sua vida e seus sonhos: comer.

A sopa.

Cada colherada de sopa não tem preço.

Uma colherada de menos é um dia menos de vida.

Trocam-se dois três cigarros por uma sopa.

Muitos, débeis demais, não podem defender sua ração contra os golpes e os ladrões. Espera ser carregado pelo barro, pela neve, esticar-se em qualquer parte e ter uma agonia própria.

As latrinas, os abortos. Esqueletos com barriga de bebê iam lá sete, oito vezes por noite. A sopa era diurética. Desgraçado aquele que encontrava um Kapo bêbado ao luar. Olhava-se com medo, sofriam-se sintomas prontamente familiares; sangrar era sinal de morte.

Mercado clandestino: vendia-se, comprava-se, matava-se em silêncio. Visitavam-se. Corriam-se as falsas e as verdadeiras notícias.

Organizavam-se grupos de resistência.

Uma sociedade tomava forma. Uma forma esculpida no terror, menos louca, entretanto que a ordem dos SS que se expressava nestes preceitos: “A limpeza é saúde”, “O trabalho liberta”, “A cada um segundo o seu mérito”, “Um piolho é tua morte”. E um SS, o que é?

Cada campo reserva surpresas: uma orquestra sinfônica. Um zoológico. Jardins de inverno onde Himmler cultivava plantas frágeis. A castanheira de Goethe em Buchenwald. Construíram o campo ao lado, mas respeitaram a castanheira. Um orfanato efêmero, constantemente renovado. Um bloco especial para os inválidos. Então o mundo verdadeiro, o das paisagens tranqüilas, o do tempo antigo, pode aparecer longe, não tão longe.

Para o deportado, era uma imagem. Ele pertencia só a este universo fechado, acabado, limitado pelos balcões de onde os soldados vigiavam o bom aspecto do campo, vigiavam incessantemente os deportados, as vezes os matavam, por aborrecimento.

Qualquer pretexto era bom para incômodos, para castigos. Para humilhações.

As chamadas, horas duras. Uma mal feita, vinte pauladas. Não se fazer notar, não se mostrar diante dos deuses. Têm seu cadafalso, seu terreno para matar.

Este pátio do bloco 11, escondido dos olhares, disposto para o fuzilamento, com as paredes protegidas dos sinais das balas; este castelo de Hartheim, onde ônibus de vidros escuros conduzem passageiros que nunca mais se encontraram. Transportes negros saindo de noite e dos quais ninguém saberá nunca mais se encontraram. Transportes negros saindo de noite e dos quais ninguém nunca saberá nada.

Mas um homem é incrivelmente resistente. Com o corpo queimado pelo cansaço, o espírito trabalha; as mãos cobertas de ataduras trabalham; se fabricam colheres, títeres que se escondem, monstros, caixas. Consegue-se escrever, tomar notas, exercitar a memória com sonhos. Pode-se pensar em Deus. Inclusive se chega a organizar-se politicamente, a disputar com os delinqüentes comuns o controle interior da vida do campo, cuidam-se dos camaradas mais fracos, criam-se sistemas de auxílio.

Como último recurso, encaminham-se angustiosamente os mais ameaçados ao hospital, à enfermaria.

Aproximar-se desta porta era a ilusão de uma verdadeira enfermidade, a esperança de uma cama. Era também o risco de uma morte por injeção. Os medicamentos são ridículos. As ataduras de papel. A mesma pomada serve para todos os enfermos, para todas as chagas. Às vezes, o doente faminto come as ataduras. No fim, todos os deportados são parecidos. Alinham-se sobre um modelo sem idade que morre de olhos abertos.

Havia um bloco cirúrgico. Poderíamos pensar estar ante uma verdadeira clínica. Doutor SS. Enfermeira inquietante. Há uma decoração, mas, por outro lado, operações inúteis, amputações, mutilações experimentais. Os Kapos, como os cirurgiões SS, podiam treinar, aprender o ofício.

As fábricas químicas enviam ao campo amostra de seus produtos tóxicos. Ou então compram diretamente um lote de deportados para suas experiências. Dessas cobaias, alguns sobreviveram, castrados, queimados com fósforo. Tem alguns cuja carne ficará marcada para sempre, mesmo que haja o regresso.

Desses homens, dessas mulheres, os escritórios administrativos conservam seus rostos, depositados ao chegar. Também se depositaram os nomes. Nome de vinte e duas nações. Preenchem centenas de registros, milhares de fichários. Um risco vermelho assinala os mortos. Os deportados levam essa contabilidade delirante, sempre falsa, sob o olhar dos SS, e dos Kapos privilegiados. Esses são os “proeminentes”, a elite do campo.

O Kapo tem sua própria habitação, onde guarda suas coisas e recebe de noite suas jovens favoritas. Muito perto do campo, o comandante tem sua vila, onde sua esposa contribui para manter a vida familiar e às vezes mundana, como em qualquer outra guarnição. Talvez ela se aborreça um pouco: a guerra parece não querer terminar. Mais afortunados, os Kapos tinham um bordel. Prisioneiras melhor alimentadas, mas destinadas, como as outras, à morte. Às vezes, destas janelas tem caído pedaços de pão para camaradas do exterior.

Desta maneira, os SS tinham reconstituído no campo uma verdadeira cidade, com hospital, bairro reservado e, inclusive, um cárcere. Inútil descrever o que acontecia em seus porões. Caixas calculadas para não poder estar-se de pé nem deitado; homens e mulheres foram atormentados conscientemente durante dias. As bocas de ventilação não retêm o grito.

1942. Himmler visita os campos. É necessário aniquilar, mas produtivamente. Deixando a produtividade a seus técnicos, Himmler ocupa-se do problema do aniquilamento.

Estudam-se planos, maquetes. Executa-se, e os próprios deportados participam nos trabalhos.

Um crematório podia ter, se fosse preciso, um agradável ar de cartão postal. Mais tarde – hoje, os turistas batem fotografias deles aqui.

A deportação se estende a toda Europa.

Os comboios se extraviam, detém-se, voltam a sair, são bombardeados, chegam finalmente.

Para uns já está feita a seleção

Para os outros, elege-se rapidamente. Os da esquerda irão trabalhar. Os da direita…

Estas imagens foram captadas instantes antes de um extermínio. Matar com as mãos leva demasiado tempo. Encarregam-se caixas de gás Zyklon.

Nada distinguia a câmera de gás de um bloco ordinário.

No interior, uma falsa sala de duchas acolhia os recém-chegados. Fechavam-se as portas. Observava-se. O único sinal, mas há que conhecê-lo: é o teto arranhado pelas unhas. Inclusive o cimento despedaçava-se.

Quando os fornos não eram suficientes, levantavam-se fogueiras. Os novos fornos conseguiam, não obstante, absorver milhares de corpos por dia.

Tudo se recupera…

Estas eram as reservas dos nazistas em guerra, seus celeiros; dos cabelos de mulher… a quinze pfennigs o quilo… Faziam-se tecidos.

Com os ossos… Adubos. Pelo menos se tentava. Com os corpos… É difícil dizê-lo… Com os corpos, queriam fabricar sabão.

Quanto à pele…

1945. Os campos se estendem, estão cheios. Como cidades de cem mil habitantes. Lotados em todas partes. A grande indústria interessa-se por esta mão de obra indefinidamente renovável.

As fabricas têm seu campo pessoal proibido aos SS. Steyer, Krupp, Heinckel, I. G. Farben, Siemens, Hermann Goering se abastecem nestes mercados. Os nazis podem ganhar a guerra. Essas novas cidades formam parte de sua economia.

Mas vão perdê-la. Falta o carvão para os crematórios, falta pão para os homens. Os cadáveres abarrotam as ruas dos campos. O tifo…

Quando os aliados abrem as portas… “Eu não sou responsável”, diz o Kapo.

“Eu não sou responsável”, diz o oficial.

“Eu não sou responsável”.

Então, quem é responsável?

No momento em que vos falo, a água fria dos pântanos e das ruínas enche o vão dos matadouros.

Uma água fria e opaca como nossa falta de memória.

A guerra está sonolenta com um olho sempre aberto.

A erva fiel cresceu novamente sobre as Appelplätze, em torno aos blocos; um povo abandonado, cheio ainda de ameaças.

O crematório não é mais usado. As astúcias nazis já passaram de moda. Nove milhões de mortos espreitam esta paisagem.

Quem de nós vigia neste estranho observatório para advertir-nos sobre a chegada de novos verdugos? Eles têm realmente outro rosto que não o nosso? Em algum lugar, entre nós, há Kapos afortunados, chefes recuperados, delatores desconhecidos.

Há todos aqueles que não acreditam, ou somente de vez em quando.

E estamos nós que olhamos sinceramente estas ruínas como se o velho monstro concentracionário estivesse morto sob os escombros; nós que fingimos recuperar a esperança diante desta imagem que se afasta, como se nos sanássemos da peste concentracionária; nós que fingimos acreditar que tudo isso pertence a um só tempo e a uma só nação, e que não pensamos em olhar à nossa volta e que não ouvimos que se grita interminavelmente.


[1] FRODON, Jean-Michel (org.). Le Cinéma et la Shoah. Un art à l’épreuve de la tragédie du XXe siècle. Paris: Cahiers du Cinéma / Fondation pour la Mémoire de la Shoah, 2007.

[2] DRAME, Claudine. Des films pour le dire. Reflets de la Shoah au cinéma, 1945-1985 (accompagné de Témoignages pour mémoire, un DVD de 55 minutes), Metropolis, Genève, 2007.

[3] NOVICK, Peter. L’Holocauste dans la vie américaine. Paris: Gallimard, 2001; 2008.

[4] SONTAG, Susan. “Reflections on ‘The Deputy’, in SONTAG, Susan. Against Interpretation and Other Essays. New York: Picador USA / Farrar, Straus And Giroux, 2001, p. 124-131.

APRESENTAÇÃO

Dentro do projeto de pesquisa Cinema e Holocausto, apoiado pelo CNPq, procuramos analisar os registros cinematográficos do genocídio do povo judeu sob o nazismo, assim como suas documentações e representações fílmicas, que se multiplicaram desde 1945. O tema abrange hoje um campo muito amplo de produções: os filmes que primeiro intuíram ou vislumbraram o Holocausto durante sua execução, ou seja, realizados entre 1933 e 1944; os que registraram a abertura dos campos entre 1944 e 1945; os que, desde então, documentaram o evento com reflexões históricas ou metafóricas utilizando ou não os registros de 1944-1945; e os que o representaram dramaticamente com encenações baseadas ou não em casos reais, conseguindo evocar o evento, ou fracassando no intento, limitando-se à sua estetização ou mesmo caindo na sua banalização.

Nossa pesquisa do tema teve início com meu doutorado-sanduíche (1990-1994), sob a orientação de Anita Novinsky (Brasil) e Michael Prinz (Alemanha) sobre o cinema nazista e suas colaborações com as forças que perpetraram o Holocausto. Após alguns desvios de percurso (efetivação na UFMG, quatro anos de chefia do FTC, pesquisas sobre o expressionismo alemão e sobre a obra de Pier Paolo Pasolini), o estudo do cinema sobre o Holocausto foi retomado graças a uma Bolsa de Produtividade  do CNPq, resultando em diversas publicações nacionais e internacionais. Não pudemos colaborar, como previsto, com o Projeto Milênio do LEI-USP, mas intensificamos nossa colaboração com o Núcleo de Estudos Judaicos da FALE-UFMG, coordenado por Lyslei Nascimento, e do qual assumi a vice-coordenação, participando de seus seminários e de suas publicações.

Pude assim retomar o tema de meu Doutorado, dedicando-me mais intensamente às pesquisas sobre o cinema nazista, o cinema antinazista e o cinema do imediato pós-guerra, cujo estudo sempre me interessou como historiador: ministrando disciplinas relacionadas à documentação e à representação do Holocausto na Graduação e na Pós-Graduação da Escola de Belas Artes; orientando alunos de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado envolvidos na temática;  divulgando em aulas, conferências e seminários os registros da abertura dos campos de concentração e de extermínio pelos cinegrafistas-soldados dos exércitos aliados e os primeiros filmes narrativos sobre a Shoah, redescobertos nas Cinematecas do Leste europeu após a queda do Muro. Numa extensão desses trabalhos, neste blog serão postados alguns resultados de minhas atuais pesquisas sobre Cinema e Holocausto.

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