NOITE E BRUMAS


Nuit et brouillard (Noite e neblina / Noite e brumas, 1955), de Alain Resnais.

Nuit et brouillard / Night and Fog (neblina / Noite e brumas, França, 1955, 32’, cor e p&b, doc). Direção: Alain Resnais. Texto: Jean Cayrol. Locução: Michel Bouquet. Trilha: Hans Eisler.

Como observou Stuart Liebman [1], as recentes análises da produção, distribuição e recepção de numerosos filmes sobre o Holocausto de 1944 a 1949 [2] obrigam-nos a rever a tese de Peter Novick [3] sobre o silêncio que teria recoberto o Holocausto no imediato pós-guerra. Poucos filmes tiveram, contudo, neste período, a repercussão que teve Nuit et brouillard, de Alain Resnais. Encomendado pelo Comité de la Deuxième Guerre Mondiale (Comitê da Segunda Guerra mundial) para recordar os dez anos da libertação dos campos, o projeto foi aceito pelo cineasta, um dos maiores da Nouvelle Vague, com a condição de contar com a colaboração do poeta judeu Jean Cayrol, ex-prisioneiro de Mauthausen, e que relatara sua experiência em Poèmes de la nuit et du brouillard (1945), livro que inspirou o título do filme.

Nuit et brouillard é uma edição de filmes provenientes de diversos arquivos sobre  o nazismo e seu sistema concentracionário, com imagens chocantes dos campos no momento da Libertação, reproduzidos de A memory of the camps, entre outros registros, mescladas com cenas atuais dos campos de Auschwitz-Birkenau e Majdanek enquanto museus do horror. O preto e branco das imagens de arquivo contrasta com o colorido das imagens atuais dos campos cobertos pela relva enquanto a câmera explora em longos travellings seus tenebrosos interiores.

O comentário irônico e dramático de Jean Cayrol e a engajada trilha sonora do compositor vanguardista Hans Eisler contribuem para tornar o filme um marco na memória visual dos campos, sendo um dos primeiros documentários a abordar o Holocausto de maneira “poética”, procurando desvendar a essência do universo concentracionário. Para esse efeito, Resnais teve de renunciar ao modo didático na descrição das imagens: sua montagem é temática. Assim Susan Sontag recordou-se do filme: “Como nem todas as obras de arte têm como objetivo educar e orientar a consciência, nem todas as obras de arte que realizam com sucesso sua função moral proporcionam grande satisfação como arte […]. Só consigo recordar […] Nuit et brouillard, de Alain Resnais, que satisfaz tanto como ato moral quanto como obra de arte […] [A obra é] altamente seletiva, emocionalmente implacável, historicamente escrupulosa e – se o termo não parecer excessivo – maravilhosa.” [4].

Com lirismo e sarcasmo, o filme de Resnais convida à reflexão sem poupar o espectador de imagens gráficas, preferindo, contudo, captar os detalhes sugestivos do horror: a marca dos dedos fincados nas paredes internas das câmaras de gás, o estilo arquitetônico das torres de vigia dos KZs, a fileira de buracos numa laje de cimento à guisa de privada coletiva. Essas imagens parecem fixar-se em nossas mentes, pela sugestão do sofrimento atroz, com maior força até que as cenas terríveis dos corpos esqueléticos e mutilados, carregados como bonecos pelos soldados e ex-guardas SS, enterrados aos montes por escavadeiras nas valas comuns: imagens tão sórdidas de uma realidade tão horrenda que anestesiam nossa capacidade de identificação: não conseguimos mais nos ver na situação (daí o caráter inimaginável do Holocausto).

Investigando a superação e a permanência do passado, Nuit et brouillard pretende ser um chamado às consciências para que a humanidade não caia mais vítima de líderes carismáticos, alertando para a possibilidade sempre aberta da perigosa sedução do totalitarismo, já que o universo concentracionário não se  limitaria a um único país e a um único tempo, nem teria sido extinto para sempre, podendo subitamente renascer de suas cinzas. Subjaz nesse alerta a esperança ingênua e militante de que, sempre recordados, os crimes bárbaros não se repetirão.

Resnais recordava o Holocausto no contexto da Guerra da Argélia: vivia-se na França a luta contra o colonialismo. Seu filme – assim como logo depois L’Enclos (1961), de Armand Gatti; e Le Temps du ghetto (1961), de Frédéric Rossif – refletia a atualidade política. Essa “universalização” do Holocausto pelo engajamento na causa política da independência da Argélia incomodou o documentarista judeu brasileiro e israelense David Perlov, que observou que nem todo mundo havia morrido no Holocausto, e que o genocídio perpetrado pelos nazistas tinha uma marca judaica que não se podia diluir numa universalização oportunista.

TEXTO DO POETA JEAN CAYROL, PARA O FILME DE ALAIN RESNAIS, COM TRADUÇÃO DO POETA JUAN HERNANDEZ.

Inclusive uma paisagem tranqüila.

Inclusive uma pradaria com vôo de corvos, com colheitas e com fogos de ervas.

Inclusive uma estrada por onde passam carros, camponeses, parelhas.

Inclusive um povo de veraneio, com uma feira e um campanário, pode conduzir simplesmente a um campo de concentração.

Struhhof, Oranienburg, Auschwitz, Neuengamme, Belsen, Ravensbruck, Dachau foram nomes como os outros sobre os mapas e os guias.

O sangue coagulou-se, as bocas calaram-se, os blocos são visitados por uma câmera. Uma estranha erva cresceu e cobriu a terra gasta pelo andar dos concentrados. Os edifícios: e força já não passa pelos cabos elétricos.

1933. A máquina põe-se em marcha. Necessita-se uma nação sem notas discordantes, sem queixas. Todas as mãos à obra.

Um campo de concentração se constrói como um estádio, ou um grande hotel. Com empreitadas, com orçamentos, com competência; sem dúvida, com gratificações.

Nenhum estilo obrigatório.

Deixa-se liberdade à imaginação.

Estilo alpino, estilo garagem, estilo japonês, sem estilo.

Os arquitetos inventam tranqüilamente os alpendres destinados a serem trespassados uma única vez.

Durante esse tempo, Burger, socialista alemão; Stern, estudante judeu de Amsterdã; Schmulski, comerciante de Cracóvia; Annette, colegial de Bordeaux viviam sua vida cotidiana, sem saber que a mil quilômetros de distância já tinham um lugar assinalado.

E chega o dia em que os blocos terminaram, somente faltam eles.

Capturados de Varsóvia. Deportados de Lodz, de Praga, de Bruxelas, de Atenas, de Zagreb, de Odessa ou de Roma. Internados de Pithiviers. Capturados de Vel d’Hiv.

Resistentes reunidos em Compiègne, a multidão dos capturados em flagrante, dos capturados erroneamente, dos capturados por casualidade. Inicia-se a marcha aos campos.

Trens fechados, a cal e canções.

Acúmulo de deportados, cem por vagão.

Nem dia, nem noite, a fome, a sede, a asfixia, a loucura

Cai uma mensagem, às vezes recolhida.

A morte faz sua primeira seleção.

Uma segunda se faz à chegada, na noite e na neblina.

Hoje, sobre o mesmo caminho, é dia e brilha o sol.

O percorremos lentamente, em busca de que?

Das marcas dos cadáveres desaprumados ao abrir as portas.

Ou talvez o passo dos primeiros a descerem, empurrados a coronhadas até a entrada do campo, entre os latidos dos cachorros, os resplendores dos holofotes, e no horizonte a chama do crematório, numa dessas cenografias noturnas que tanto agradavam aos nazis.

Primeiro olhar sobre o campo: é um outro planeta. Sob pretexto higiênico, a nudez; sem mais nem menos, a entrega ao campo de um homem humilhado.

Ultrajado, tatuado, numerado, apanhado no jogo de uma hierarquia ainda incompreensível, coberta de uniforme azul listrado, classificado às vezes Nacht und Nebel, “Noite e Neblina”.

Marcado com o triângulo vermelho dos “políticos”, o deportado enfrenta de pronto os triângulos verdes dos delinqüentes comuns, senhores entre os subhomens

Por cima: o Kapo, quase sempre um delinqüente comum.

Por cima ainda, o SS, o intocável.

Falam-lhe a uma distância de três metros.

No alto, o comandante preside distraído com os ritos. Parece ignorar o campo. Não o ignora.

Inutilmente tentamos descobrir os restos, a realidade dos campos, desprezada pelos que a fabricam, incompreensível para os que a sofrem. Nenhuma imagem pode devolver sua verdadeira dimensão a esses blocos de madeira, a essas camas de madeira onde dormiam três, a essas tocas onde se escondiam, onde comiam sorrateiramente, onde mesmo o sonho era uma ameaça, a de um medo ininterrupto.

Faria falta o suporte da cama que servia de despensa e de caixa-forte, o cobertor pelo qual brigavam, as denúncias, as blasfêmias, as ordens retransmitidas em todas as línguas, as bruscas entradas do SS com vontade de controle ou de brincadeiras.

Deste dormitório de tijolo, desses sonhos ameaçados, somente podemos mostrar-nos a cortiça, as cores.

Assim era a decoração: edifícios que poderiam ser estábulos, granjas, oficinas. Um terreno pobre convertido em solar, um céu de outono indiferente, isto é tudo o que nos resta para imaginar uma noite sulcada de chamadas, de controles, de piolhos; uma noite que faz bater os dentes; temos que dormir rapidamente.

Despertar-se a golpes; empurrando-se, buscando as coisas roubadas.

Às cinco. Interminável reunião sobre a Appelplatz, a “Praça de Chamada”. Os mortos da noite sempre falsificam as listas.

Uma orquestra toca uma marcha de opereta à saída para a pedreira, para a fábrica.

Trabalho na neve que rapidamente se converte em barro gelado.

Trabalho no calor de agosto, com a sede e a disenteria.

Três mil espanhóis morreram para construir esta escadaria que leva à pedreira de Mathausen.

Trabalho nas fábricas subterrâneas

Mês a mês soterrados, se afundam, se escondem, matam. Levam nomes de mulher: Dora, Laura.

Mas esses estranhos operários de trinta quilos são pouco seguros.

E o SS os espiona, os vigia, os reúne, os examina e os registra antes de voltar ao campo.

Cada um manda à sua casa pergaminhos de estilo rústico. Ao Kapo só lhe resta a recontagem de suas vitimas da jornada.

O deportado encontra de novo a obsessão que dirige sua vida e seus sonhos: comer.

A sopa.

Cada colherada de sopa não tem preço.

Uma colherada de menos é um dia menos de vida.

Trocam-se dois três cigarros por uma sopa.

Muitos, débeis demais, não podem defender sua ração contra os golpes e os ladrões. Espera ser carregado pelo barro, pela neve, esticar-se em qualquer parte e ter uma agonia própria.

As latrinas, os abortos. Esqueletos com barriga de bebê iam lá sete, oito vezes por noite. A sopa era diurética. Desgraçado aquele que encontrava um Kapo bêbado ao luar. Olhava-se com medo, sofriam-se sintomas prontamente familiares; sangrar era sinal de morte.

Mercado clandestino: vendia-se, comprava-se, matava-se em silêncio. Visitavam-se. Corriam-se as falsas e as verdadeiras notícias.

Organizavam-se grupos de resistência.

Uma sociedade tomava forma. Uma forma esculpida no terror, menos louca, entretanto que a ordem dos SS que se expressava nestes preceitos: “A limpeza é saúde”, “O trabalho liberta”, “A cada um segundo o seu mérito”, “Um piolho é tua morte”. E um SS, o que é?

Cada campo reserva surpresas: uma orquestra sinfônica. Um zoológico. Jardins de inverno onde Himmler cultivava plantas frágeis. A castanheira de Goethe em Buchenwald. Construíram o campo ao lado, mas respeitaram a castanheira. Um orfanato efêmero, constantemente renovado. Um bloco especial para os inválidos. Então o mundo verdadeiro, o das paisagens tranqüilas, o do tempo antigo, pode aparecer longe, não tão longe.

Para o deportado, era uma imagem. Ele pertencia só a este universo fechado, acabado, limitado pelos balcões de onde os soldados vigiavam o bom aspecto do campo, vigiavam incessantemente os deportados, as vezes os matavam, por aborrecimento.

Qualquer pretexto era bom para incômodos, para castigos. Para humilhações.

As chamadas, horas duras. Uma mal feita, vinte pauladas. Não se fazer notar, não se mostrar diante dos deuses. Têm seu cadafalso, seu terreno para matar.

Este pátio do bloco 11, escondido dos olhares, disposto para o fuzilamento, com as paredes protegidas dos sinais das balas; este castelo de Hartheim, onde ônibus de vidros escuros conduzem passageiros que nunca mais se encontraram. Transportes negros saindo de noite e dos quais ninguém saberá nunca mais se encontraram. Transportes negros saindo de noite e dos quais ninguém nunca saberá nada.

Mas um homem é incrivelmente resistente. Com o corpo queimado pelo cansaço, o espírito trabalha; as mãos cobertas de ataduras trabalham; se fabricam colheres, títeres que se escondem, monstros, caixas. Consegue-se escrever, tomar notas, exercitar a memória com sonhos. Pode-se pensar em Deus. Inclusive se chega a organizar-se politicamente, a disputar com os delinqüentes comuns o controle interior da vida do campo, cuidam-se dos camaradas mais fracos, criam-se sistemas de auxílio.

Como último recurso, encaminham-se angustiosamente os mais ameaçados ao hospital, à enfermaria.

Aproximar-se desta porta era a ilusão de uma verdadeira enfermidade, a esperança de uma cama. Era também o risco de uma morte por injeção. Os medicamentos são ridículos. As ataduras de papel. A mesma pomada serve para todos os enfermos, para todas as chagas. Às vezes, o doente faminto come as ataduras. No fim, todos os deportados são parecidos. Alinham-se sobre um modelo sem idade que morre de olhos abertos.

Havia um bloco cirúrgico. Poderíamos pensar estar ante uma verdadeira clínica. Doutor SS. Enfermeira inquietante. Há uma decoração, mas, por outro lado, operações inúteis, amputações, mutilações experimentais. Os Kapos, como os cirurgiões SS, podiam treinar, aprender o ofício.

As fábricas químicas enviam ao campo amostra de seus produtos tóxicos. Ou então compram diretamente um lote de deportados para suas experiências. Dessas cobaias, alguns sobreviveram, castrados, queimados com fósforo. Tem alguns cuja carne ficará marcada para sempre, mesmo que haja o regresso.

Desses homens, dessas mulheres, os escritórios administrativos conservam seus rostos, depositados ao chegar. Também se depositaram os nomes. Nome de vinte e duas nações. Preenchem centenas de registros, milhares de fichários. Um risco vermelho assinala os mortos. Os deportados levam essa contabilidade delirante, sempre falsa, sob o olhar dos SS, e dos Kapos privilegiados. Esses são os “proeminentes”, a elite do campo.

O Kapo tem sua própria habitação, onde guarda suas coisas e recebe de noite suas jovens favoritas. Muito perto do campo, o comandante tem sua vila, onde sua esposa contribui para manter a vida familiar e às vezes mundana, como em qualquer outra guarnição. Talvez ela se aborreça um pouco: a guerra parece não querer terminar. Mais afortunados, os Kapos tinham um bordel. Prisioneiras melhor alimentadas, mas destinadas, como as outras, à morte. Às vezes, destas janelas tem caído pedaços de pão para camaradas do exterior.

Desta maneira, os SS tinham reconstituído no campo uma verdadeira cidade, com hospital, bairro reservado e, inclusive, um cárcere. Inútil descrever o que acontecia em seus porões. Caixas calculadas para não poder estar-se de pé nem deitado; homens e mulheres foram atormentados conscientemente durante dias. As bocas de ventilação não retêm o grito.

1942. Himmler visita os campos. É necessário aniquilar, mas produtivamente. Deixando a produtividade a seus técnicos, Himmler ocupa-se do problema do aniquilamento.

Estudam-se planos, maquetes. Executa-se, e os próprios deportados participam nos trabalhos.

Um crematório podia ter, se fosse preciso, um agradável ar de cartão postal. Mais tarde – hoje, os turistas batem fotografias deles aqui.

A deportação se estende a toda Europa.

Os comboios se extraviam, detém-se, voltam a sair, são bombardeados, chegam finalmente.

Para uns já está feita a seleção

Para os outros, elege-se rapidamente. Os da esquerda irão trabalhar. Os da direita…

Estas imagens foram captadas instantes antes de um extermínio. Matar com as mãos leva demasiado tempo. Encarregam-se caixas de gás Zyklon.

Nada distinguia a câmera de gás de um bloco ordinário.

No interior, uma falsa sala de duchas acolhia os recém-chegados. Fechavam-se as portas. Observava-se. O único sinal, mas há que conhecê-lo: é o teto arranhado pelas unhas. Inclusive o cimento despedaçava-se.

Quando os fornos não eram suficientes, levantavam-se fogueiras. Os novos fornos conseguiam, não obstante, absorver milhares de corpos por dia.

Tudo se recupera…

Estas eram as reservas dos nazistas em guerra, seus celeiros; dos cabelos de mulher… a quinze pfennigs o quilo… Faziam-se tecidos.

Com os ossos… Adubos. Pelo menos se tentava. Com os corpos… É difícil dizê-lo… Com os corpos, queriam fabricar sabão.

Quanto à pele…

1945. Os campos se estendem, estão cheios. Como cidades de cem mil habitantes. Lotados em todas partes. A grande indústria interessa-se por esta mão de obra indefinidamente renovável.

As fabricas têm seu campo pessoal proibido aos SS. Steyer, Krupp, Heinckel, I. G. Farben, Siemens, Hermann Goering se abastecem nestes mercados. Os nazis podem ganhar a guerra. Essas novas cidades formam parte de sua economia.

Mas vão perdê-la. Falta o carvão para os crematórios, falta pão para os homens. Os cadáveres abarrotam as ruas dos campos. O tifo…

Quando os aliados abrem as portas… “Eu não sou responsável”, diz o Kapo.

“Eu não sou responsável”, diz o oficial.

“Eu não sou responsável”.

Então, quem é responsável?

No momento em que vos falo, a água fria dos pântanos e das ruínas enche o vão dos matadouros.

Uma água fria e opaca como nossa falta de memória.

A guerra está sonolenta com um olho sempre aberto.

A erva fiel cresceu novamente sobre as Appelplätze, em torno aos blocos; um povo abandonado, cheio ainda de ameaças.

O crematório não é mais usado. As astúcias nazis já passaram de moda. Nove milhões de mortos espreitam esta paisagem.

Quem de nós vigia neste estranho observatório para advertir-nos sobre a chegada de novos verdugos? Eles têm realmente outro rosto que não o nosso? Em algum lugar, entre nós, há Kapos afortunados, chefes recuperados, delatores desconhecidos.

Há todos aqueles que não acreditam, ou somente de vez em quando.

E estamos nós que olhamos sinceramente estas ruínas como se o velho monstro concentracionário estivesse morto sob os escombros; nós que fingimos recuperar a esperança diante desta imagem que se afasta, como se nos sanássemos da peste concentracionária; nós que fingimos acreditar que tudo isso pertence a um só tempo e a uma só nação, e que não pensamos em olhar à nossa volta e que não ouvimos que se grita interminavelmente.


[1] FRODON, Jean-Michel (org.). Le Cinéma et la Shoah. Un art à l’épreuve de la tragédie du XXe siècle. Paris: Cahiers du Cinéma / Fondation pour la Mémoire de la Shoah, 2007.

[2] DRAME, Claudine. Des films pour le dire. Reflets de la Shoah au cinéma, 1945-1985 (accompagné de Témoignages pour mémoire, un DVD de 55 minutes), Metropolis, Genève, 2007.

[3] NOVICK, Peter. L’Holocauste dans la vie américaine. Paris: Gallimard, 2001; 2008.

[4] SONTAG, Susan. “Reflections on ‘The Deputy’, in SONTAG, Susan. Against Interpretation and Other Essays. New York: Picador USA / Farrar, Straus And Giroux, 2001, p. 124-131.

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ARQUIVO: ORIENTAÇÃO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Aluno: Carlos Alexandre Assis Vieira. Orientador: Luiz Nazario. Instituição: UFMG. Caracterização: Bolsista CNPq. Período: 01/08/2007 a 31/07/2008. Monografia: Para que nunca seja esquecido. Palavras-chave: Cinema, Holocausto.

BANNER DE CARLOS ALEXANDRE DE ASSIS VIEIRA

ARQUIVO: CURSO MINISTRADO EM 2007

Curso: Cinema e Holocasuto.  Ementa: Visão sintética das representações do Holocausto no cinema, desde os registros documentais realizados pelos cinegrafistas que acompanharam as tropas que libertaram os campos, passando pelas primeiras reflexões documentárias do genocídio industrializado, até a criação de um gênero documentário e narrativo sobre o universo concentracionário, antes do advento do cinema revisionista. Programa: 1. Os registros documentais do Holocausto: os filmes dos cinegrafistas militares americanos, ingleses, franceses e russos. 2. Primeiras reflexões sobre o genocídio industrializado. 3. A série da TV americana Holocaust abala a Alemanha. O Holocausto imaginado pelos cineastas de Hollywood. 4. O Holocausto em dimensão cinematográfica: sucesso, polêmica e censura. Os documentários produzidos pela Fundação de História Visual Sobreviventes da Shoah. As visões européias do Holocausto. Relativização e negação do Holocausto no novo cinema revisionista. Período: 16 a 19 de abril de 2007.

CURSO: CINEMA E HOLOCAUSTO

 

Categorias:ARQUIVO

APRESENTAÇÃO

Dentro do projeto de pesquisa Cinema e Holocausto, apoiado pelo CNPq, procuramos analisar os registros cinematográficos do genocídio do povo judeu sob o nazismo, assim como suas documentações e representações fílmicas, que se multiplicaram desde 1945. O tema abrange hoje um campo muito amplo de produções: os filmes que primeiro intuíram ou vislumbraram o Holocausto durante sua execução, ou seja, realizados entre 1933 e 1944; os que registraram a abertura dos campos entre 1944 e 1945; os que, desde então, documentaram o evento com reflexões históricas ou metafóricas utilizando ou não os registros de 1944-1945; e os que o representaram dramaticamente com encenações baseadas ou não em casos reais, conseguindo evocar o evento, ou fracassando no intento, limitando-se à sua estetização ou mesmo caindo na sua banalização.

Nossa pesquisa do tema teve início com meu doutorado-sanduíche (1990-1994), sob a orientação de Anita Novinsky (Brasil) e Michael Prinz (Alemanha) sobre o cinema nazista e suas colaborações com as forças que perpetraram o Holocausto. Após alguns desvios de percurso (efetivação na UFMG, quatro anos de chefia do FTC, pesquisas sobre o expressionismo alemão e sobre a obra de Pier Paolo Pasolini), o estudo do cinema sobre o Holocausto foi retomado graças a uma Bolsa de Produtividade  do CNPq, resultando em diversas publicações nacionais e internacionais. Não pudemos colaborar, como previsto, com o Projeto Milênio do LEI-USP, mas intensificamos nossa colaboração com o Núcleo de Estudos Judaicos da FALE-UFMG, coordenado por Lyslei Nascimento, e do qual assumi a vice-coordenação, participando de seus seminários e de suas publicações.

Pude assim retomar o tema de meu Doutorado, dedicando-me mais intensamente às pesquisas sobre o cinema nazista, o cinema antinazista e o cinema do imediato pós-guerra, cujo estudo sempre me interessou como historiador: ministrando disciplinas relacionadas à documentação e à representação do Holocausto na Graduação e na Pós-Graduação da Escola de Belas Artes; orientando alunos de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado envolvidos na temática;  divulgando em aulas, conferências e seminários os registros da abertura dos campos de concentração e de extermínio pelos cinegrafistas-soldados dos exércitos aliados e os primeiros filmes narrativos sobre a Shoah, redescobertos nas Cinematecas do Leste europeu após a queda do Muro. Numa extensão desses trabalhos, neste blog serão postados alguns resultados de minhas atuais pesquisas sobre Cinema e Holocausto.

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